quinta-feira, 5 de março de 2009

idéias quaisquer.

qualquer um,
como qualquer outro
com quaisquer outras
que o fazem um qualquer
sem qualquer ambição
e qualquer amor próprio.
Quaisquer que sejam as outras
serei sempre um "qualquer um".



qualquer palavra que me defina
seria qualquer coisa dita em vão
e qualquer coisa
nunca é qualquer coisa



qualquer um
em seu qualquer estado de sanidade
diria que são palavras quaisquer
em qualquer ordem
que não dizem qualquer coisa
e qualquer coisa
nunca será qualquer coisa
nem palavras quaisquer



qualquer palavra que se defina
não é qualquer palavra
é muito mais
acima do estar, do qualquer



qualquer vestígio de autenticidade
foi pra qualquer lugar
longe de qualquer um
onde todos são um qualquer
e o qualquer é a alma de todos
qualquer palavra de autenticidade
pode ser nada de alguém
ao invés de tudo de um qualquer


Rodrigo da C. Lima Bruni

fragmentação

juntei meus poucos cacos de mim mesmo
e remontei essa falsa réplica
de um terço de toda minh'alma
dada como extinta



e prescrevi umas poucas ilusões
antes que me ocorressem
apenas para não perder o gosto de sofrer
e não ter medo que se tornassem reais



menti alguns amores
apenas para que me fizessem amado
e me acalmassem o coração
que batia, e hoje tardo
a dar-lhe um motivo para bater



e confundi-me de mim mesmo.
incompreensível o porquê disso tudo
se ao final de tudo
pouco restou do todo
que não tardou desapegar-me



deixar-me apenas com esses poucos cacos
remontados com fita adesiva
e "sabeis que uma obra de arte nunca é a mesma
depois de quebrada"



e remontei minha obra de arte
como se fosse obra de arte
estas, que são complexas como Deus,
perdem a essência quando quebradas
e se tornam apenas uma obra



e não podem ser remontadas
apenas reinventadas
sem nunca serem as mesmas
sem nunca terem de si mesmas
a essência que lhes foi tomada pela tragédia.


Rodrigo da C. Lima Bruni

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

ilusória.

sou prostituto
desde que me entendo por mim



já passei por vários corpos
já me deixei seduzir pelo mais perfeito sexo
ainda que resida uma ambiguidade à isso.



me (bem)digo profissional da ilusão
e afirmo me satisfazer com pouco mais de umas fiéis esperanças como pagamento
firmo satisfazer á todos.



aos enfermos
aos doentes de alma
e ás almas enfermas por doentes de si



já escorri pela sarjeta
me embriaguei o suficiente pra me achar bom
e achei bom a ironia que à tudo isso se mostrou franca



Que poderia almejar?
tão somente profissional
porquanto tal
que o próprio gozo que me detém
é o mesmo pelo qual me abstenho



e abro mão sem nenhum pesar
abro minhas mãos á quem quiser
somente não me abro
pois abrir-me o total sentido
seria encerrá-los em plena desgraça



e se algum sentido á alguém se mostrar
será sentido e compreendido como eu o deveria
com o coração,
por onde mais vago, sem razão
e que posso fazer
se sou, tão somente
um velho, usurpado
condenado
e foragido prostituto.


Rodrigo da C. Lima Bruni

a arte

sem garbo
eufemismo
ou eloquência



arte é arte
feliz e fiel a si
arte é parte



fração de nós que não parte
que não é nossa
(como nós somos dela)



está no mundo
tão somente por ser necessária
por ser sensível
e há(ver) de ser sentida



tão inculta e pouco pudenda
que se revela à quem lhe revela a alma
lhe vela um motivo pra viver
para ser ( e há de ser) arte



a pintura nos colore rimas
a poesia nos (a)figura, Amor,
sua vida



pois há de sacrificar-se
para ser sentida
para ser arte ainda que (tragédia!) póstuma.



arte é parte
feliz e fiel em si
e das milhões de partes
uma nos cabe
e cabe em nós milhões de artes.


Rodrigo da C. Lima Bruni

rosa de plástico

viva ao ar mal beijado
do incorpóreo amor que nos inspira
e expira
ao final de respiração lenta e ruidosa



e dolorosa
que por tanto doer
se mostra rosa
de espinhos e pétalas de plástico



que nos plastifica a perfeita e digníssima razão
razão nossa que é dela
que de rosa apenas o nome detém
cinza é sua real cor



névoa é seu aspecto, seu tato
névoa espessa e dura como rocha
neve seria sua real sensação
mas esta só assim se afigura tardiamente



e a tarde ao menos tarde é
para quem realmente lhe descobre
para quê realmente a descobrir?
vamos plantar sua semente e colher seu falso fruto bendito



vamos ao Amor, semear nossa cara
e fazer dele humano
ainda que rosa de plástico
vamos fazê-lo plasticamente humano



vamos fazer dele nós mesmos
e de nós, rosa de plástico
para assim ser (in)quebrável
esse amor nosso (que somo nós)


Rodrigo da C. Lima Bruni